Voltei ao oftalmo. Minha visão, que, por eu ser míope, era tão boa pra perto começou a me incomodar. Eu andava afastando do meu rosto qualquer coisa que eu tinha para ler, como se aquele papel estivesse fedendo. Sim. Eu agora também tenho vista cansada: um problema que, apesar do nome, não é na vista, mas nos braços, que começam a ficar curtos demais pra você ler qualquer coisa escrita em letras miúdas que esteja nas suas mãos.
Mandei fazer os óculos pra presbiopia (nome técnico pra essa condição), mas esqueço em casa direto, jogo na bolsa de qualquer jeito… De vez em quando dá vontade de andar com uma lupinha à tiracolo, igual à minha avó, pq é mais resistente.
Na faixa dos 30 eu até usei óculos, porque tinha uma moda de usar uns estilosos e eu aproveitei. Só que aos 13 anos, o negócio não era bem assim. Ainda mais pra quem não era do grupo das “bonitas” na adolescência.

“Óculos” do Paralamas já era uma música velha (é de 1984), mas ainda ressoava na minha cabeça: “por que você não olha pra mim? Ô ô…” E nas óticas não havia nada bonito pra minha grande cabecinha adolescente. A verdade é que não tinha celebridade jovem que usasse óculos nos anos 90. Tanto que em todos os filmes da época, quando a garota feia passava por uma transformação, a única coisa que faziam era tirar os óculos dela. Como é que eu ia colocar um óculos nessa idade quando todas as comédias românticas estavam me dizendo que era pra tirar?

Então, assim como hoje, também não usava. Só colocava de vez em quando na sala de aula pra copiar o quadro – e olhe lá.
Nessa época, claro que os meninos estavam entre as minhas maiores preocupações. E tinha um que eu achava lindo de longe, mas como uma adolescente com um corte de cabelo errado e franja ruiva, minha autoestima era mais capenga do que a de um millenial solitário pós-pandêmico no twitter. Eu achava que não era bonita o suficiente pra ele – e até acho que nessa época nem era mesmo. Minha intenção era admirar o que eu julgava ser belo.
Anos depois, ainda sem usar óculos, aprendi a ser bonita tendo coragem de usar shortinhos e mais coragem ainda para fazer minhas sobrancelhas. Mas ainda guardava o ranço de quem já foi “feia” pra algumas pessoas e continuava tendo o medo da rejeição maior do que a vontade de realizar meus desejos. Eu gostava de olhar pro menino, que acho que continuava bonito. Não posso nem dizer que eu paquerava ele, porque era completamente unilateral. Eu admirava de longe praticamente um borrão, já que fui aumentando um pouco o grau da miopia ao longo dos anos.
Mesmo assim, eu reconhecia aquele borrão gato de longe, belo como uma obra de arte abstrata. Ele tinha um movimento único, um jeito de andar próprio, uma malemolência carioca surfistinha de cabelo asa-delta que eu já sabia de cor e que só o meu borrão podia ter.
Nas férias seguintes, fui a uma noitadinha que era praticamente o recreio do colégio – naquela época podia entrar com 16 anos, só não podia comprar bebida. Assim que eu entrei, vi o bonitão e ele já estava ficando com uma menina. Lógico! Gatinho daquele jeito. Eu achei a garota linda, mas as minhas amigas diziam que eu estava viajando.
Claro que aquele seria o point do meu verão e no sábado seguinte, fui pra lá de novo e cheguei cedo. Quando estou conversando com minhas amigas de frente pra porta da boate, vi meu gatinho como um quadro de Monet entrar e fiquei focada pra ver aonde ele ia – calça jeans, camisa xadrez meio azul, nossa, tá arrumado, pensei, mais fácil pra localizar. Ele vai e fala com uns amigos ali. E eu tomando meu guaraná olhando de rabo de olho. Daqui a pouco, vejo que ele está chegando perto da gente. Fala com mais alguém e continua se aproximando vindo reto na minha direção. Olho em volta pra ver se tem alguém conhecido por ali. Ninguém. Não que eu enxergasse, pelo menos. Então, quando ele estava a uns dois metros de distância, eu olhei de volta e arregalei o olho. A criatura não era o meu bonitão, mas um cara aleatório! Eu tinha focado em outro borrão! Virei o rosto, tentei disfarçar, mas já era tarde demais. O garoto já estava falando comigo. Oi, tudo bem, eu vi que você estava me olhando. Qual é o seu nome?
Que vergonha, minha cara foi no chão. Fiquei com tanta vergonha que não consegui nem dizer não pro menino. Acabei dando uns beijos no sósia, que de perto não tinha nada a ver com o original, além do cabelinho asa delta. Mas ele era super gente boa. Tão gente boa que acabou virando meu namorando por alguns meses. Bom pra dar um up na autoestima, e pra eu dizer que já tive um namorado. Mas também sem muito envolvimento.
Minhas amigas dizem que o meu borrão original brotou na festa de uma delas sem conhecê-la direito por causa de mim (adoro que minhas amigas confiavam mais no meu taco do que eu mesma) e eu ainda com o falso, mas olhando meu borrão original de longe.
Foi aí que começou a rolar uma mínima suspeita de que eu poderia ter chances com o bonitão original e eu logo mandei ‘beijo tchau’ pro borrão Tabajara (se vc é jovem e quer entender a referência, pesquise por ‘organizações tabajara’).
Eu continuei firme sem usar os óculos na escola e rolaram todas aquelas fofocas e o jogo de sedução adolescente, de um falar que tem alguém a fim do outro, não dizer quem é direito, fingir que não está nem aí, comentar sobre quem você achava gatinho na frente do amigo do flerte, aquela enrolação clássica. Foi só na última festa antes da formatura do 2º grau que eu recebi o recado de que ele queria conversar comigo. A gente finalmente ia ficar a sós.
Eu estava vivendo o sonho. O fim da comédia romântica com o garoto colocando a música romântica no microsystem e segurando acima da cabeça.
Era o meu momento. O clássico bonitão tira os óculos da menina nem não bonita assim (que eu nunca usei) e eles se beijam.


Depois do primeiro beijo no borrão, que era bem nítido agora de perto, ele continuava bonito (ufa!). E mandou:
— Nossa, demorou pra gente ficar, né?
— Oi?
— A gente demorou pra ficar. Vai dizer que não lembra que a gente ficava se olhando qdo a gente fazia prova na mesma sala no ano passado?
Que? Então ele me olhava também? Morri rapidinho, ressuscitei e fiz a fina confiante que olhava de volta sem desviar o olhar:
— É mesmo, eu sabia que você também me olhava, claro.
E agradecia à minha miopia por enganar meu medo de rejeição e a minha vergonha. Eu olhava porque era um borrão lindo que nem sabia da minha existência.
Consegui aproveitar as vantagens do não ver. Do não saber. Acabou valendo a pena perder uns ônibus por não conseguir ver qual era e ter namorado um carinha aleatório.
Obrigada, miopia.
Presbiopia, o que tens a me oferecer?
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