Xuxa, Califórnia e minha franja ruiva

Há alguns meses eu fui bombardeada por imagens de duas figuras loiras e lindas que foram muito importantes na minha infância: Xuxa e Barbie.

Assisti à série documental da Xuxa e adorei, trouxe uma nostalgia doce e ao mesmo tempo sufocante. Também fui ao cinema no meio de uma tarde de terça-feira, sem companhia ver Barbie e adorei as sacadas e o entretenimento, mas também me senti angustiada. Talvez por ativar o gatilho que das minhas mais antigas inseguranças.

Naquela época em que eu brincava de Barbie e via Xuxa diariamente, eu era uma criança extremamente solitária e já me sentia frustrada por tantas coisas. Para acalentar o coração, convivia com a Xuxa, mesmo que separada por uma tela. E quando não estava na hora do programa, eu tinha o meu mundo inventado das Barbies (eu não tinha muitas, mas duas e o He-man do meu irmão davam conta de representar as minhas histórias mais mirabolantes).

Nesse clima de nostalgia, elas eram me trouxeram a lembrança de serem um lugar de conforto, mas ao mesmo tempo, Xuxa e Barbie foram também um pouco repressores. Elas eram o símbolo do que era belo, que aprendi ainda na infância e que perduraram por toda a minha adolescência, quiçá paté hoje: aquela mulher linda, magra, alta e loira que nunca serei, ainda é o ideal de beleza com que fui criada. A Xuxa era realmente uma Barbie viva. Uma boneca com roupas extravagantes que andava, falava e conversava comigo pela telinha.

No documentário sobre a Xuxa, falaram muito sobre as dificuldades que ela passou e sobre a determinação dela, mas desde criança você saca que muito do que ela conseguiu foi porque ela é simplesmente MUITO bonita. E, como a beleza abre portas, tudo que eu queria era ser ela. Só que ao mesmo tempo sabia que nunca seria como ela. Loira de olhos azuis, magra, mas com cintura, e um metro e meio de pernas.

Logo depois, lá pros anos 90, quando eu já estava parando de ver o Xou da Xuxa, surgiram as “Xuxas” da minha turma do colégio. Era o grupo das meninas ‘bonitas’ (coloco aspas porque não eram as únicas bonitas de fato, mas elas eram mais padrão, tinham a autoconfiança que me faltava e a admiração dos meninos).

Eu, obviamente pelo meu fenótipo e pela minha personalidade, não era do grupo delas. As Xuxas não chegavam a ser aquelas “garotas malvadas” de filme de high school americano, mas claramente não eram as mais receptivas pra quem não era linda padrão ou não usava os acessórios da marca da moda (Company e Cantão).

Quando já tinha 13 anos, reza a lenda que essas garotas foram pra Califórnia e voltaram todas loiras – eu lembro delas voltarem das férias loiras, mas nunca soube diretamente delas, que tinham ido mesmo pra Califórnia, era o papo que rolava entre os excluídos. Elas tinham feito luzes caseiras mesmo, como faziam na época: pegaram água oxigenada ou parafina e passavam no cabelo, mais especificamente na franja, ficavam no sol e saíam tudo ‘loira oxigenada’ ou ‘loira parafinada’ (eram os termos da época).

Apesar de eu não fazer parte do grupo, elas me deram uma ideia. Afinal, eu também queria me sentir bonita, poxa! Eu também quero ser Xuxa – ou pelo menos uma paquita. Sempre fui muito tímida, mas secretamente tinha o desejo de também chamar atenção como elas. Eu queria, pelo menos, não ser invisível.

Foi então que, por minha conta e risco, sem avisar pra ninguém, resolvi primeiro cortar a minha franja em casa com a tesourinha de ponta redonda e passar água oxigenada cremosa 40 volumes nas madeixas.

Fui pra janela do quarto dos meus pais, que é onde batia o sol de tarde. Fiquei com a carinha lá por 20 minutos e voltei pro espelho: castanho. Isso significava que tinha clareado, porque o meu cabelo é preto. Bem preto. Tão preto que as pessoas achavam que eu passava Henê Rená (essa referência não é pra qualquer um – coloca no google se você for jovem demais ou rica demais).

É isso, gente, mesmo com meu cabelo tipo Henê, eu resolvi ter a franja loira. O castanho que a franja estava não era suficiente. Eu tinha que clarear mais.

Passei mais água oxigenada cremosa e voltei pro sol. Os dedos cheios de pontinhos brancos por manusear o clareador sem proteção. Cansei da janela e fui ver sessão da tarde. Eu já tinha esquecido da água oxigenada quando minha mãe chegou.

“O que que é isso no seu cabelo?”

“Ah, mãe, dei uma clareada.”

“Meu Deus, eu tenho 42 anos e nunca pintei o cabelo na vida!”

Que bom pra vc, mãe – claro que não falei, só pensei. E ela continuou:

“Vou ter que marcar o Arnaldo pra dar um jeito nisso.”

Eu me olhei no espelho e não achei tão ruim assim. Na verdade estava até achando um pouco legal, me achando meio moderna, um estilo praiano, surfistinha gata garota carioca. Claro que eu não consegui bancar e concordei em ir no cabeleireiro dela.

No dia seguinte fui toda faceira pra aula, esperando descolar elogios – pelo menos das minhas amigas. Quando elas me viram já gritaram:

“Taís, que franja é essa?”, eu vi que a minha missão tinha falhado.

Apesar de eu ser aquariana e gostar de coisas diferentes, na adolescência é muito difícil conseguir não ligar para a opinião dos outros. Pelo contrário, a opinião dos outros era tudo o que eu validava na época – insegurança, né? Por isso, eu nunca podia admitir que eu mesma tinha inventado de passar água oxigenada no meu cabelo preto Henê, da cor da asa da graúna. E, pior, eu não tinha a menor autoconfiança e coragem pra dizer que no fim das contas eu tinha achado legal.

Minha solução mais simples foi dizer que eu tinha feito uma aposta com o pessoal do prédio – que nunca existiu, porque eu era involuntariamente antissocial no meu prédio.

Elas deixaram pra lá, depois de me questionarem muito que aposta era essa que me fez fazer uma cagada tão grande no meu cabelo.

Minha mãe me levou pra cortar o cabelo no tal do Arnaldo de Niterói e eu levei uma foto da Luciana Vendramini pra fazer uma franja mais cheia e cobrir um pouco a franja laranja e as laterais repicadas. Ele fez um corte em camadas estilo ‘pigmaleão’ que não tinha nada a ver com o cabelo da Vendramini e eu saí de lá com um mullet maior que Chitãozinho e Xororó nos tempos áureos. A franja estava tão alta que eu quase não passava na porta. Lembro que a gente passou na casa de uma tia saindo do salão e ela achou que eu era uma amiga da minha mãe.

Depois disso, foram meses molhando o cabelo na pia do banheiro da escola nos intervalos pra dar uma reduzida no volume.

Um pouco depois, eu gostava de um garoto de uma outra turma. Uma amiga minha que era da sala dele contou que eu era a fim dele – sem o meu consentimento (por que algumas amigas faziam isso?). Ele perguntou: “Que Taís? Aquela que tem a franja meio ruiva?”

Não, essa história está longe de ser o início de uma comédia romântica onde a gente descobre que o menino bonitão sempre esteve de olho na garota mediana. Nada aconteceu. Mas finalmente eu não era mais invisível. Missão cumprida.

Avatar de Taís Moraes

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3 respostas para “Xuxa, Califórnia e minha franja ruiva”.

  1. Avatar de Pericles Moraes
    Pericles Moraes

    Que texto lindo. Até mesmo, emocionante. Adorei tudo. Os diálogos, os sentimentos, as lembranças. E divertido.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de PERICLES DE MORAES FILHO
    PERICLES DE MORAES FILHO

    Que texto lindo. Não me surpreendeu. Sensível, forte e divertido. Diálogos perfeitos, Matéria profunda. Sentimentos não envelhecem, por isso peças de Shakespeare e dos antigos gregos são lidos e encenados até hoje. Adorei.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Avatar de Obrigada, miopia – Taís Moraes

    […] eu aproveitei. Só que aos 13 anos, o negócio não era bem assim. Ainda mais pra quem não era do grupo das “bonitas” na […]

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