Quando voltei de viagem de férias no fim de janeiro vi restos de confete pela calçada da minha rua e percebi que já é Carnaval. Na verdade, ainda é pré-carnaval, mas o pré sempre foi o que eu mais gosto do Carnaval.

Esse ano o pré é curto e tem que aproveitar. Mas já teve ano em que o Carnaval era em março e o pré não terminava nunca. Minhas amigas e eu achávamos que não íamos sobreviver aqueles três meses de blocos intermináveis tipo boitolo. Mas a gente curtia.

Imagem gerada com auxílio de IA pelo Canva

O pré dá aquela sensação de que algo grandioso está para começar e a gente já começa a fazer um esquenta. Aliás, os “esquentas” antes de shows e eventos eram sempre melhores do que o evento em si. Todo mundo empolgado para o que ainda vai acontecer, mas sempre dando aquela segurada pra tentar não queimar a largada. Porque, em uma corrida, quem queima a largada sai antes, mas não vale nada o que você correu. O clássico “se eu não lembro não fiz.”

No Carnaval muita gente queima a largada muito antes de chegar no auge do bloco, porque rola aquela pressão, né? A pressão de que só se vive uma vez e a gente tem que aproveitar muuuuuito. Mas o pré-carnaval é mais de boas. Não te traz aquela necessidade louca de ser feliz. E com isso a gente vai sendo. Sem pressão porque ainda tem o Carnaval em algumas semanas. A expectativa pelos dias oficiais da folia alivia a pressão dos do pré, por isso, a vibe é melhor.

E aí a gente passa a vida assim, curtindo mais o pré-carnaval, achando que ele é mesmo pré.

“Ah, porque eu não quero criar expectativa…” Gente, se eu não criar expectativa eu não vivo ou não faço nada. Porque viver é ter visões sobre o futuro na nossa cabeça e depois reescrever o passado com o olhar narrativo também. Não tem jeito, a gente visualiza e idealiza quando ainda é futuro, vai vivendo, vai saindo tudo diferente, e depois a gente reconta como história quando já é passado.

Agora, tem gente que cria muita expectativa, mas nem se arrisca a vivê-la pra não quebrá-la. Uma eterna espera por um bloco que nunca passa.

Toda história de amor romântico é um pré-carnaval, é o jogo da sedução esperando para realizar o que não se sabe ao certo como é, mas se imagina. Esperando um movimento que não vai para o lugar que você espera. É por isso que as histórias de amor que a gente mais vê nos filmes e nos livros acabam quando ele se realiza – ou não.

Imagina o que seria de Romeu e Julieta se não tivessem morrido? Brigariam o tempo todo porque as avós têm opiniões diferentes sobre onde eles querem morar, porque querem mandar na criação dos filhos. Jack e Rose (DiCaprio e Winslet) se tivessem se casado iam perceber que não têm nada em comum, a não ser o furor da paixonite do início e chegariam na monotonia do casamento como se o outro filme em que os dois atores protagonizam “Foi apenas um sonho” (Revolutionary Road) fosse uma continuação de Titanic.

A história da Cinderella acaba qdo ela entra no castelo e vai ter que conhecer direito o marido e cuidarem juntos de uma vida a dois. Requer esforço. E na hora de contar a história não é tão romântico assim mais.

Eu já tive gente que eu queria muito ficar e eu já tinha repetido aquela história de amor tantas vezes na minha cabeça que parece que eu já tinha vivido de alguma forma. Aí quando o negócio estava prestes a acontecer sério, eu sumi. Inventei pra mim mesma que era porque ele tinha usado um short tipo samba-canção da Sandpiper para ir ao cinema na sessão de meia-noite e eu não era capaz de superar uma infração tão grave ao código da moda. Era fim dos anos 90, início dos anos 2000, todos estávamos cometendo crimes nesse segmento.

Na verdade, eu sumi por medo de quebrar toda a história que eu tinha criado, que era linda demais para ser quebrada. Era melhor ficar longe. De longe a gente não vê os defeitos. Não vê que o cara tá usando bermuda jeans e regata pra dentro (com cinto). Melhor ficar no pré-carnaval.

Tem quem viva mais intensamente a paquera do que o namoro ou o casamento. Porque essa segunda parte requer esforço.

Dos ex-namorados, nenhuma lembrança me afeta. Já rolou e desrolou, já vimos como foi. Não sobrou nada. Mas o ex-casinho – aquele que poderia ter sido, mas não foi – esse dá uma sensação diferente. Não por querer voltar ou tentar algo, mas porque deu margem pra narrativa. Porque só o que sobra é a saudade da história que não se viveu. E de quem a gente já foi.

Porque mesmo dentro dos nossos relacionamentos já vivemos muitas vidas e continuaremos vivendo outras histórias mais pra frente, a gente não quer queimar as largadas ao longo da história. Ou será que quer?

Está nublado. Vai ser um bom pré-carnaval. O pós dura o ano todo.

PS: Vejam o filme Past Lives (Vidas Passadas).

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Uma resposta a “O Pré”

  1. Avatar de Pericles
    Pericles

    Que texto lindo. Estou sendo repetitivo, mas é verdade.

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