Vi ovos de páscoa nas gôndolas do Prezunic uma semana antes do Carnaval e fiquei apavorada. Eu nem saí do Pré-Carnaval e já estão comemorando a Páscoa, que é só 40 dias depois da quarta-feira de cinzas.

Há muito tempo que nossos ciclos passaram a ser movidos não só pelas comemorações sociais, mas pelo consumo. É Carnaval? Compra purpurina, e cerveja. É Dia dos Namorados? Compra um perfume e um cartão (ai, que vintage). É festa junina? Compra vestido de chita e canjica. Daqui a pouco já é Natal na Líder Magazine e vc vai comprar panetone e brinquedo.

É tudo pra vender. Tudo que a gente faz é pro outro comprar. No Instagram só se posta o que vai “dar engajameeeinto”. Imagina só o quão libertador seria fazer algo que não seja para ser aprovado pelos outros. Algo que não seja pra vender. Que não te faça se sentir produtiva.

As redes sociais morreram. Não porque as empresas não estejam lucrando, mas porque não são mais sociais. Não é mais como era o Orkut no início – quando a gente reencontrou um monte de gente que não via há séculos. Hoje, todo mundo está postando para mostrar sua marca pessoal e pra vender.

Nada pode ser aleatório. Tudo tem que virar dinheiro de alguma forma. Nem mesmo no trabalho formal é suficiente ser bom no que você faz, você tem que saber mostrar sua marca pessoal e ser um empreendedor online também.

Por isso me intrigou um podcast e um texto de uma professora de escrita estadunidense chamada Vanessa Zoltan que ela recomenda não escrever um romance, mas escrever um romance ruim. Pra isso, ela propõe entrar no desafio de escrita chamado NaNoWriMo (National Novel Writing Month) e propõe aos seus participantes escreverem um romance (a novel) de 50 mil palavras em um mês – geralmente é o mês de novembro, mas você pode escolher qualquer um. O que importa é mergulhar na imaginação e escrever.

No site, eles até citam autores publicados depois de muitas reescritas após o desafio, mas, convenhamos, qual é a chance de sair algo bom escrevendo sem editar mais de 16 mil palavras por dia? Alguma chance existe, claro, mas não é qualquer um sem treinamento e sem reescrita que vai sair Carla Madeira. Para Zoltan, o legal do NaNoWriMo é a liberdade de fazer algo que ninguém vai julgar e que pode – e vai – ser ruim.

Achei essa ideia tão bizarra que alugou um triplex na minha cabeça. Se ninguém vai ler, então pra que eu estou escrevendo? Qual é o sentido de desperdiçar todo esse tempo? Eu não devia estar fazendo algo pra ser produtiva e ganhar dinheiro? Tenho dois filhos que não foram sorteados no colégio Pedro II e preciso pagar a escola particular.

Mas é que a minha cabecinha está formatada para essa sociedade que exige produtividade a todo momento. Tudo é produto. E o movimento de resistir a essa exigência é libertador. A gente é tão bombardeada nas redes sociais vendo gente que ganha dinheiro fazendo o que é hobby e gente ensinando você a transformar seu hobby em trabalho. Tudo pra gente comprar algo. Seja o bonequinho de crochê ou o curso pra fazer ovos de páscoa para vender antes do carnaval.

É deixar nossa imaginação vagar de vez em quando sem usar esse texto pra nada além do exercício de escrever. É como exercício físico. Você faz pra te fortalecer. Que aliás, essa história de falar “treinar” na hora que a pessoa vai malhar, ou fazer ginástica só foi inventada pra você parecer produtivo por estar “treinando” pra fazer algo pra valer depois. Eu detesto falar treinar. Gosto do antigo “tô indo pra ‘cadimía (academia de ginástica)”! Tenho certeza que as mesmas pessoas que inventaram treino inventaram o “tá pago” e os ovos de Páscoa antes do Carnaval. Porque querem que a gente esteja sempre com a sensação de que “tá devendo” se a gente não for.

Escrever é a mesma coisa. A graça é ser quem você é, mas seu chefe, seu trabalho e o mercado não querem que você acredite nisso e continue à beira de um burnout. Escreva livremente pra você se sentir bem sendo você mesma.

A gente tem que ter espaço pra ser desleixada de vez em quando e não precisa colocar tudo à venda.

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Uma resposta para “A maldição da produtividade”.

  1. Avatar de Pericles Moraes
    Pericles Moraes

    E quando publicar estas crônicas, será bem produtivo. Excelente.

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